A INCINERADORA

Cresci numa família pseudonormal
Meus pais não eram permissivos
Ao contrário
Extremistas religiosos
Frequentavam a Igreja Universal
Eu odiava esse ritual 
À época, eu não entendia nada.
Não sabia a verdade
A virada da minha vida aconteceu
Três pastores amigos do meu irmão trancaram-me num galpão e me estupraram
Nunca contei pra ninguém
De menina boazinha a monstra em uma tarde
Passei anos chorando em sublimação solitária
Depois, comecei a permitir-me ser agressiva.
Principalmente com meu irmão, a quem culpei por minha tarde de sodomia.
Planejei tudo
Mas depois de matá-lo fiquei meio arrependida
Ele parecia inocente quando arranquei seus olhos
Deve ter morrido sem saber o acontecido naquele galpão
Pois é
Eu não
Sou uma morta viva 
E por isso só dei o tiro de misericórdia na nuca dele depois de três dias de tortura
Um dia para cada estuprador
O problema de matar alguém é saber como livrar-se do corpo
Aprendendo a sumir com os restos mortais, matar torna-se corriqueiro.
No caso do meu irmão
Meu primeiro óbito voluntário
Eu o esquartejei e o levei aos pedaços, dia após dia, para a Funerária Incineradora Boa Morte, onde trabalho.
Apesar de ter nojo de homens
Sou amante do dono
Assim fica fácil misturar os pedaços dos meus cadáveres nas incineradoras diárias
Depois é mamão com açúcar
Melzinho na chupeta
Não existe célula que tolere temperatura acima de 1000 graus
Esse calor é suficiente para derreter até a alma de quem sonhava reencarnar
Perdi a conta de quantos mandei pro inferno 
Foi por isso que arrumei esse emprego
Para trucidar
Adoro saber que as cinzas entregues às famílias estão juntas com pedaços de outros defuntos
Depois de muitos matarmos, o gosto pelo insano fica apurado.
Fico molhadinha
Voltando à minha família
Em seguida ao sumiço do meu irmão, meus pais pioraram muito.
Oravam dúzias de salmos por dia
Eu não aguentava mais
Comecei a pensar em matá-los
Principalmente depois de ver meu pai e os três pastores algozes da minha felicidade inócua comendo mamãe na matinha
Excessos emocionais geram desarmonia
Não demorou muito
Esquartejei meu pai e o mandei aos pedaços para incineradora
Nesse caso específico, guardei pedacinhos e botei na sopa da minha mãezinha.
Foi lindo vê-la comendo-o
Matei-a logo depois dessa cena
Martelei sua cabeça até seu cérebro virar patê
Requintes de crueldade
Hoje tenho pencas de corpos para incinerar 
Quantos mais, eu não sei precisar.
Todos cortadinhos e embalados nos meus freezers
Não tem um dia que eu não queime uma mão
Um pé
Uma cabeça
Ou qualquer outra parte do corpo desumano
As cabeças dão algum trabalho de transportar
Boa bosta
Logo todos estarão em suas urnas sublocadas 
Sem coração
Doa quem doer 
Eu planto ódio para colher desamor
Quanto aos meus três estupradores
Vou deixá-los vivos até suas filhas crescerem
Depois vou estuprá-las com um pé-de-cabra até a morte diante dos olhos pastorais
Estamos todos fadados de injúria
A morte começa viva
Meu compromisso é sobreviver

Pablo Treuffar
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A VERDADE É QUE EU MINTO

A VERDADE É QUE EU MINTO

ATALUM

Eu e Fred crescemos juntos
Da creche ao vestibular
Ininterruptamente bons amigos
Mas o Fred foi meter a pica na Laura
Essa mulata mudou nossas vidas
Suas curvas
Seus lábios
Acabaram comigo
Conheci a Laura na quadra da Mangueira
Lembro dela sambando de shortinho branco
Apaixonei-me na hora
E o Fred veio dizer estar comendo
Tava de sacanagem
Fred passava o rodo
Eu não
Numa bebedeira pedi-lhe para deixar-me a Laura
Tampamos na porrada
Brigamos como cão e gato
Parceiros, não mesmo.
Paramos de nos falar
Algumas semanas passaram
Comecei a ver Laura
Perguntei por Fred
Disse ser um cachorro
Caímos na gargalhada
Depois estávamos namorando
Fomos morar juntos
Na comunidade ninguém sabia do Fred 
Achava ótimo
Nossa vida era excelente
Saíamos pra trabalhar pela manhã
À noite, sexo.
Abundante libidinagem
Laura trabalhava meio expediente
Ficava à tarde em casa
Pra fazer-lhe companhia, perguntou-me:

- O que acha de termos um cachorrinho?

Boa ideia
Laura trouxe o mastim
Moraria conosco
Estava sozinho no sitio do seu avô
Embora não fosse filhote, aceitei.
Arrependi-me no final de semana
O canino não podia demorar-se ao meu lado
Rosnava
Na maldade
Mas valia a pena
Estava com Laura
Sem Fred
Só alegria
Samba, suor e cerveja.
Num pagode, o cachorro me mordeu.
Eu nem sabia o nome do quadrúpede
Quando perguntava
Laura respondia: 

- Cachorrinho

Cachorrinho nada
Era um daqueles galgos enormes de Roma
Imenso
Mandamo-lo de volta pro sitio
Não queria ser abocanhado
A vida professou sem o cabeça-de-ferro
As rodas de samba eram habituais
Perguntavam por Fred
Laura brincando dizia: 

- Fiz macumba

Ela era mãe de santo
Tinha um terreiro em Jacarepaguá onde recebia entidades
Grandes merdas
Nunca acreditei em porra nenhuma
A vida não é tão boa
Dois anos foram-se
Descobri
Laura estava dando pra outro
Mulata escrota
Esperei a piranha chegar ao barracão
Parti pra cima xingando
Ela rindo falou: 

- Fica quietinho, gatinho. Não sou mulher pra você comer sozinho. Não gosto de cachorrão! Lembra-se do Fred? Então, você é o meu homem, para com isso ou arrumo mandraca pra você.

Meu sangue ferveu
Dei na cara dela
Mandei na lata: 

- Mané mandraca é o caralho! Outros de cu é rola! Puta de merda, pomba-gira, tô saindo fora. Coitado do Fred, meteu o pé. Eu vou meter também, e pensar no que fiz com ele...

Ela não reagiu
Fui apanhar a bicicleta no quartinho/dispensa
Acendi a luz
Ouvi a porta bater e a chave girar
Tentei abrir e nada
Tentei arrombar e nada
Gritei e nada
Era um quarto sem janela, cavado num buraco, no alto da favela.
Eu não tinha muito o que fazer
Comecei a ouvir cantigas de macumba
Atalum!
Peguei no sono 
Quando acordei, tentei falar.
Não consegui
Meu som era outro
Agonia
Desespero
A terra girou
Fios saíram rompendo-me a pele
Muito estranho
Comecei a andar de quatro 
A lua encheu e minguou 
Tudo estava grande
Ante um espelho
Vi um gato branco
Não era possível
Olhei outra vez
Sim
Eu estava preso num corpo felino
Assombrado
Sobraram verbos
Dormir e acordar 
Comer e cagar
Beber e mijar
Andar e correr
Pular e rolar 
Miar
Essa era minha vida
Esse era meu mundo
Dentro de um quartinho/dispensa
Na cava
Cheiros de ração, areia, mijo e merda.
Sobrou o nada
Resignado, eu jogava nas onze. 
Sonhando com uma bolinha de papel
Advieram meses sem ver Laura
Só restava miar alto
Insuportavelmente
A vadia teria de abrir a porta
Eu pularia na jugular
Meus dentes e unhas a fariam sangrar até a morte
Eu era um gatuno
O bichano mais ágil do mundo
A minijaguatirica assassina
Ela se arrependeria por ter-me jogado mandinga
Eu miava em estéreo
Calculando meu bote letal 
A porta abriu
O cachorro dela apareceu
O Mastim Napolitano entrou babando
Voltei à minha realidade insignificante
Gatinho doméstico
Corri e pulei
Não teve jeito
Perante o mastim pastor de leões
Uma única chance, morrer rápido.
Ouvi Laura gritar: 

- Pega Fred... ksksksks... mata o gatinho!

Pendurado em sua boca, triturado e chacoalhado, balançando de um lado pro outro, pensei: “Fred”.
Fui morrendo lentamente
Macumbeira feladaputa

Pablo Treuffar
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A VERDADE É QUE EU MINTO

A VERDADE É QUE EU MINTO

O ESTRESSADINHO DO PUTEIRO

Adoro o submundo carioca
Gosto da escória, do lixo.
Putas
Drogas
Inferninhos
Cafetões
Traficas
Casas de swing
Orgias
Perversões
O resto que só a sarjeta compassiva das pessoas pode nutrir
O pior da humanidade
Bandidos travestidos com fardos azuis de extorsão são meu cotidiano
Ontem fui à Erótica, um puteirinho da Prado Júnior.
Fui buscar nas fontes vagabundas o pó que mereço
Os especialistas na entrega não prestaram o serviço nasal
Malditos moto-taxistas que dormem cedo
Esses caras acham que vou cheirar no trabalho, na hora do almoço?
Cocaína não é maconha
Ninguém se programa pra dar um tequinho
Sacanagem!
Quando entrei na Erótica, fui beijado por uma vadia deliciosa.
Meu habitat natural
Nos puteiros as mulheres dão mole pra mim
Não faço questão de comê-las
Gosto de beijá-las na boca
Usar um pouquinho cada uma, ficar de sacanagem.
Puta é melhor instigando
Profissionais das relações sexuais não gostam de foder
Meretrizes são funcionárias públicas do sexo
Sempre digo pra esses tipos: 

- Vocês estão na profissão errada, prostituta tem de gostar de piroca.

Quando quero meter, pago mais de uma por vez, a concorrência melhora o desempenho delas.
Putas competindo trepam melhor
E daí
Nada me faz parar de usá-las
Foda-se
Ontem eu queria cheirar
Sentei-me à mesa, as piranhas vieram. 
Deixei claro: a princípio, queria pó.
Demorou
Uma ruiva vendeu alguns
Rapidamente estava com meus papelotes 
Cocaína ruim
Faz parte
Levantei e fui ao banheiro dar um teco
Cheirei um papel inteiro
Voltei aos beijos putanhescos
A vadia que me vendeu sumiu
Pelo grau de impureza do pó, eu precisaria dela.
Depois de alguns belengos e muitas preliminares, meu pó acabou.
Comecei a discutir com as piranhas
Ouvi de uma: 

- Você não gosta de boceta, você só gosta de cheirar.

Ela tem razão
Eu não gosto de boceta
Eu gosto é de mulher
Se a boceta não viesse acompanhada de pernas, peito, bunda e um rostinho pra beijar, eu não saberia o que fazer.
Mandei-a tomar no cu
Várias vadias vieram me bolinar 
De novo
Outra vez
Briguei com todas
Eu só queria a ruiva do belengo, a putinha do pó.
Não consegui
Fiquei puto, debatendo com as putas.
Uma vagabunda começou a me chamar de estressadinho do puteiro
Depois da puta da filha me chamar pela bilionésima vez de estressadinho do puteiro, paguei-a pra chupar.
Já no meu carro mandei-a mamar na marcha
Ela veio tirando meu pau pra fora
Falei: 

– Não, sua burra, é pra chupar a marcha do carro.

Ela riu
Eu disse: 

- Não ri não, chupa a marcha olhando eu bater punheta.

Ela começou a chupar
Mandei colocar tudo na boca
Ela colocou rindo
Quando o câmbio tava todo na boquinha vadia, perguntei: 

- Tá batendo na garganta, putinha?

Ela fez que sim
Essa sabia ganhar dinheiro
Dei uma cotovelada com toda força em sua cabeça
O sangue escorreu da sua boca pra marcha e daí para o chão
Ela não morreu na hora
Olhando-a de pau duro na mão, falei: 

- Quem é o estressadinho do puteiro agora?

No dia seguinte sua foto foi capa do Jornal O Povo
A manchete: “MAMOU, NÃO DEU, MORREU!”
Não fui preso
Eu sou o gueto

Pablo Treuffar
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O ESTRESSADINHO DO PUTEIRO de Pablo Treuffar é licenciado sob uma Licença Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivs 3.0 Unported.
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A VERDADE É QUE EU MINTO

A VERDADE É QUE EU MINTO

A TESUDINHA DO TORIBA E O LOURINHO TARADO DO LOTAÇÃO

Aos doze anos eu era um tesão
A gostosa do rabão
Todos me taravam
Despeitados escreviam “piranha”
Aos dezessete, namorei um macumbeiro.
Só beijinhos
Aos dezenove conheci um carioca, ainda virgem, casei e engravidei.
Tive dois filhos lindos
Comecei a fazer análise e aprendi a trepar
Estudei e me formei
Psicóloga com mestrado e doutorado
Li de tudo um pouco
Viajei o mundo
Transcendi
Meus pequenos cresceram
A vida seguiu normalmente
Aos 36 anos, separei-me do pai dos meus filhos.
Não podia mais mentir
Nunca parei de pensar no adolescente lourinho do ônibus
Sempre fui aficionada por ele
Eu tinha uns treze anos quando comecei a repará-lo
Ele era belo
Lembro-me dele 
Tarando-me a bunda
Encostado ao meu rabo no lotação
Sarrando-me durante o trajeto
Eu não falava nada
Descíamos do ônibus e subíamos a ladeira 
Juntos
Eu rebolando na frente
Ele seguindo meu rabo infantil 
Morávamos na mesma rua
Às vezes mergulhava na piscina do Toriba, um sítio de veraneio. 
Nessas ocasiões, banhava-me de roupa, o tecido molhado colava ao meu corpo, deixando-me transparente de juventude.
Em algumas situações, eu encontrava os olhos azuis do lourinho tarado do lotação fitando-me, ao longe.
Lascivamente imaculados
Vivemos nesse ritual por dois anos
Não trocamos palavras
Um dia ele se mudou
A existência pode ser sorumbática
Fiquei desconsolada de saudades
Dois anos depois, nos encontramos no Castelinho, um baile da cidade.
Ele contou-me ter pulado a janela pra me beijar
Amassamo-nos bastante
Beijos explícitos de vontades
Fiquei doida de felicidade
Ele falou que ia ao banheiro e sumiu
Nunca mais o vi
Grande perda
Uns vinte anos se passaram
Hoje tenho 37
Estou há um ano solteira
A vida é engraçada
Dias atrás, andando no calçadão de Ipanema, bati de frente com ele.
Seria inverdade dizer que tremi na base
Sou psicóloga
Sei controlar sentimentos
Mas fiquei encantada de veleidades
Foi rápido, estávamos atrasados pro trabalho, só trocamos telefones.
Ele disse que ia me ligar
Continuava um pulcro
Três dias depois, meu telefone tocou.
Era ele
Conversamos nossas histórias, ele me convidou pra sair.
Fomos beber um chope
Quando saí do meu carro, vi-o em pé com um copo na mão.
Abracei-o com desejo
Ele não ficou compelido
Sentamos e arrazoamos por horas
Fui arremessada ao passado
A paixão voltou como um tapa
Contei toda minha vida
Ele contou a dele, disse estar casado.
Não sou a piranha pichada nas paredes adolescentes
Nunca fui
Entre um chope e outro, ele tentou me beijar.
Ao mesmo tempo, não me permitia e queria muito provar nossa pornografia.
Ressaltava o fescenino dentro dele
Queria ser possuída
Não nasci pra ser a outra
Sou consorte afeita a relacionamentos
Essa idolatria púbere não me fez sair dos trilhos
Tenho objetivos
Roguei isso pra ele e disse ter de acordar cedo
Malogrei as possibilidades
Despedi-me e fui embora
O sol nasceu e morreu 
Eu pensava tê-lo perdido pela terceira vez
Agora, por opção.
Telefonei e perguntei se queria me ver 
Concordou
Marquei no meu consultório
Tinha um plano
Mandei a recepcionista embora
Preparei-me toda
Lingerie provocativa
Gostosa
Seminua
Fiquei esperando
Quando entrou e me viu, atacou.
Fodemos como as deusas libertinas encantavam os magos devassos
Após meu terceiro orgasmo, fi-lo gozar e fui pegar uma bebida.
Ofereci
Ele bebeu
Sentei-me à sua frente, vendo-o perecer, e pensando.
Não vou envolver-me com nenhum homem casado
Babando, ele balbuciou suas últimas palavras: “Eu me separei”
Era tarde
Chorei com a certeza do fim
O adolescente lourinho do ônibus, jamais. 
Traventa peçonha
Eu o matei

Pablo Treuffar
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A TESUDINHA DO TORIBA E O LOURINHO TARADO DO LOTAÇÃO de Pablo Treuffar é licenciado sob uma Licença Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivs 3.0 Unported.
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A VERDADE É QUE EU MINTO

A VERDADE É QUE EU MINTO

A FAXINA NO FIM DO MUNDO

Eu confesso
Saquei 300 mangos com o cartão magnético do segurado fúnebre
Retiro mensalmente a grana depositada pros falecidos a título de proventos de pensão por morte
Este é o meu esquema
Estelionatosinho basal contra a Previdência Social
Todo mundo rouba nessa porra
É a globaliladrão
Moramos no interior 
Terra de ninguém
Onde se mata por vintém
Trabalho na Caverna do Capeta
Sou Servidor Público onde Judas perdeu as botas
Passo a vida coçando o saco e pensando merda
Não faço nada o dia todo
Vamos ao que interessa
Voltemos alguns meses atrás
Eu era casado e esse é o ponto
Minha mulher era a lascividade de minissaia
Até aí tudo bem
Casei por isso
Mas não
Ela era bem mais incisiva
Descobri que ela não se limitava a receber olhares dos outros
Numa das minhas várias noites entediantes a convidei pra termos relações no mato, bem como na adolescência.
Dei-lhe um beijo, os parabéns, ela deu de ombros.
Pegamos uma estrada pro interior, pra lá da casa do caralho, lá na puta-que-pariu.
Deixei-a lá com os caras das correntes e seus cachorros de coleiras de ouro
Na volta uma charrete atravessou meu caminho 
Tentei frear, o carro derrapou e bateu.
Nada demais, amassou meu para-lama e quebrou uma roda da charrete do Zé Cachaça.
Ele caiu
Tava lá um bêbado do INSS estendido no chão
Sem sair do carro meti o pé do flagrante
Desde então minha mulher está desaparecida
Benditos pitbulls e correntes
Nesse dia fui dormir ansioso, de luto.
No dia seguinte, depois do almoço, fui pro trabalho e soube da morte do Zé Cachaça.
Fiquei incrédulo, mas nosso amigo Jorge ajudou muito falando do esquema dos proventos de pensão por morte, por sermos os Oficiais de Registro Civil da circunscrição local, o assento de óbito era lavrado por um de nós dois, se não o fazíamos dentro de quinze dias a contar do falecimento, somente poderia ser feito à vista de prévia autorização judicial.
Deixamos vários prazos passar
À época nenhuma pessoa se interessou pela morte do Zé Cachaça
Um cara sozinho
Uma bicha aidética sem família que nunca prestou favores a ninguém
Eu e o Jorge também gastamos a pensão do Zé Cachaça 
O desaparecimento da minha mulher foi muito triste pra cidade, principalmente pros homens que apreciavam sua generosidade.
As investigações até agora não tinham dado em nada
Hoje levei o Jorge ao encontro dos caras das correntes, os mesmos que conheceram minha mulher meses atrás.
Benditos pitbulls 
O Jorge também comia a minha indigníssima esposa
Viraram comida de cachorro
Até o fim do ano pretendo terminar a faxina no fim do mundo

Vocês também comeram minha mulher?

**********
Meus dois amigos de infância, pacatos policiais da pequena cidade onde moramos, botaram-me pra dentro da viatura, incrédulos da confissão e, com os olhos cheios, levaram-me pra delegacia.

Às vezes lembro-me dos lábios carnudos e das unhas pintadas de branco da vagabunda

Pablo Treuffar
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A VERDADE É QUE EU MINTO

A VERDADE É QUE EU MINTO

NÃO EXISTE FATO MORAL

Sempre as fêmeas
Fascinava-me tará-las
Escutá-las
Principalmente passar a pica nelas
Intensidade sexual
O pensamento mal visto
Não há nada além disto
Um homem condicionado à promiscuidade, busca nas vagabas o supremo meter. 
Eu fodia e andava
Mas a putaria é julgada por puritanos
Nietzsche escreveu:

Não existe fato moral, mas sim interpretação moral dos fatos.

Concordo
Julgo os mortais pelo fascínio exercido
Eu comia todas
Transpirava execráveis impulsos carnais
Tinha múltiplos disks-foda
Fernanda
Helena
Cláudia
Entre inúmeras possibilidades no cardápio virtual da internet
Vou falar de duas mulheres
Meu mundo imundo
Devasso
Perverso
Abominável
Desprezível
Indecente
Deteriorado
Vai ser pessimamente comentado
Seres humanos não acreditam poder adorar duas ou mais consortes
Meter a piroca em duas ou mais pode
Amar duas é maldição
Sou franco
Estava na merda
Flávia e Luana exigiam táticas de guerrilha
Extremamente diferentes
Luana era circunspecta e não recorria ao sex apeal
Não demonstrava inseguranças 
Não gritava por atenção singular
Já Flávia berrava e batia por isso
Devassa do acordar ao dormir
Fazendo pose de domingo a domingo
Luana era serena
No leito, segredava de olhos fechados, contida num sentimentalismo poético, proferindo-se minha, adormecia.
Flávia era o avesso
Adorava escutar sacanagens
Falar obscenidades
Lembro-me dela levando tapas de uma gostosa no rabo, no próprio andamento libidinoso, enquanto nós outros lhe dávamos uma surra de picas.
Flávia era um espetáculo para diferentes indivíduos, um faustoso desempenho descarado.
Sempre indo embora depois do coito, deixando claro não existir fidelidade.
Eu não era diferente
Namorávamos degradados
Mantínhamos o espírito livre
Flávia foi reservada a mim por anos
Depois namorou Pedro, mas trepava comigo semanalmente.
Mesmo assim, tinha despeito por meu relacionamento com Luana, bem como quando namorávamos.
À época, já era extremamente ciumenta a ponto de abortar outras bucetas de minha vida.
Eu era um histórico farto de infidelidades corporais 
Sendo assim, Flávia me enlouquecia.
Uma vez contei a ela que estava comendo a professora da academia
Ahhh... Joana... a professorinha mais gostosa de Ipanema.
Esse episódio foi um inferno
Lembro-me delas ao telefone
De um lado, Joana.
Do outro, Flávia.
Uma em cada linha
Reclamavam uma da outra
Peguei os telefones
Juntei-os opostamente
Escutaram uma a outra
Fui beber água
Por causa dessas loucuras meu corpo era todo marcado
Cicatrizes feitas pelas garras de Flávia
Na hora da raiva ela não tinha unhas, tinha garras, uma mutante qual Wolverine.
Doentiamente eu tinha atração por essa característica passional feminina
Voltemos à Luana
Seis meses juntos
Não mentia pra ela
Conhecia tudo de mim
Sabia que eu transava com outras mulheres
Sabia quem foram
Como foram
Quando foram
Período de conhecimento mútuo
Luana enfrentava tudo seguramente, tirando-me as marcas deixadas por Flávia.
Se Flávia perturbava Luana?
Acho que não
Luana sublimava, acreditava no passar do tempo.
Não fui fiel sexualmente à Flávia, minha alma gêmea sexual, fosse eu ser, teria sido a ela.
Digo fiel sexualmente porque sempre tive a mania rechaçada por todos de contar infidelidades carnais.
Contar aventuras parece estranho
Pra mim não era
Isso exerce fascínio nas fêmeas
De alguma forma elas conseguem ver um elo de confiança no confessar masculino
Subconscientemente elas gostam de saber que o macho delas é o King Kong da jeba roxa!
Elas não vão assumir isso nunca
Meu jeito era assim, sempre contando.
Não fui monosexual com Luana
Mas é agora que o bicho pega
Vou narrar atrocidades sexuais praticadas por mim e Flávia
Antecipo-me citando Marquês de Sade:

Na Libertinagem nada deve ser assustador, tudo é inspiração natural. Os atos mais extraordinários e bizarros, aqueles que mais flagrantemente entram em choque com todas as leis e instituições, nenhum contraria a nossa condição humana.

Quando eu e Flávia trepávamos
Gostava de espancar-lhe a face
Bater com força
Cuspir em sua cara
Em sua boca
Gozar em seu rosto
Com o meu sêmen a fazia brincar
Obrigava-a limpar restos de porra caídos no chão com a língua, de quatro.
Éramos nojentos juntos
Quantas vezes ajoelhada frente à privada, manuseando minha pica, Flávia tomou banhos de mijo, a urina escorrendo da língua pros lábios e daí para os seios.
Divina
A imagem da subserviência incondicional
Outras vezes mijava em seu rabo empinado de quatro, escoando assim o filete do jato pela caneleta encantada da bunda, formando nas bandas das ancas um rio dourado fluindo por seu cu, terminando em uma cachoeira de ouro a deslizar pela buceta encharcada de muitos outros fluidos.
Nesses momentos, Flávia bebia porra em pratinhos, tal qual uma cadela agradecendo seu dono.
Insana, degustava meu sêmen em copos como uma dama beberia um bom vinho.
Seu drinque preferido
Éramos pornográficos
Seus espasmos orgásticos eram derivados dessas ideias imundas
Flávia nunca passou de uma verdadeira putinha de banheiro
Um esgoto de mijo e porra
A escória sexual da humanidade
A Deusa dos orgasmos humilhantes
Flávia era plena e gostava do limite
Sua alma era minha
Manipulei-a violentamente por anos
Uma vez, ajoelhada no chão duro, chupou-me a pica por tantas horas que seus joelhos sangraram.
As marcas ficaram
Outra vez, já namorando com Pedro, surpreendeu-me com uma punheta na rua, meio a pessoas passando, gozei em sua mão e a mandei lamber.
Ela lambeu olhando-me nos olhos agradecida
Não satisfeitos, fodemos em seu trabalho, na cadeira do seu chefe.
Depois, no banheiro.
Extasiada, gargarejou meu amarelo excremento liquido com devoção, abaixada frente à privada.
Essa imagem dela era recorrente
Pra terminar o extenso e custoso poço de nojeiras, não posso fechar os olhos pra uma ocasião, onde comi o seu cu, dando tantos tapas em sua cara que Flávia viu azul.
Ela considerava este o nosso melhor momento
Uma vadia no melhor sentido da palavra
Sem valores éramos felizes
Esse era o meu estilo de vida até o Pedro me esfaquear pelas costas  
Sim, eu estou morto.
Finado na fila do purgatório
Lembro-me porque vim parar aqui
A atração mútua dos sexos era o sentido da minha vida
Flávia era minha luxúria, minha rameira sexualmente submissa.
Luana era confiável, meu porto seguro.
Fiquei com as duas amoralmente
Essa é minha biografia endossada pelo aristocrata francês
Hoje Flávia é casada com Paulo e trepa com Pedro uma vez por mês na penitenciaria onde ele cumpre pena por minha morte
Luana ainda chora por mim de vez em quando, mas está muito bem casada e feliz.
E eu... 
Eu me fodi de tanto foder

- Próximo!

Pablo Treuffar
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A VERDADE É QUE EU MINTO

A VERDADE É QUE EU MINTO

O NAMORADINHO DO BRASIL

Aos 15 anos eu já me prostituía
Nunca fui bonito
Não tenho pau grande
Muito pelo contrário
Bichas velhas mamam rolas sem ligar pra nada
Múmias paraliticas e devassas chupam até pau mole
Claro que tive que chupar uns paus e dar o cu
Não gosto de lembrar
Aos 20 anos, um cliente bambambã da Rede Bobo de Televisão começou a chupar-me com frequência.
Ele era O Cara da Oficina de Atores
Daí pra frente foram cinco anos de relacionamento
Orgias e drogas a todo tempo
Arrumei outros vários otários, ganhei um bom dinheiro.
Comecei a malhar
Alisei o cabelo
Arrumei um emprego, um papel secundário em Sarados da Tarde, uma novelinha pra adolescentes. 
A bicha velha que me arrumou essa mamata foi encontrada morta na sua cobertura
O caso foi investigado, mas não deu em nada.
Eu continuei botando coroas pra mamar até conseguir um papel na novela das sete
Desde então só faço programas à surdina
Esquemas ultra-compensatórios ou nada
Hoje sou protagonista da novela das oito, fiquei até bonito.
Sou o namoradinho do Brasil, o genro preferido das elites.
Como todas
Eu sou o cara

- Hoje estou dando-me alta, Doutor.

O Doutor não respondeu
Saí da sala e fechei a porta
Uma plaquinha dizia:
“Dr. Gustini Victor Strasser – Psicólogo”
Dentro do consultório, deitado no divã, com a garganta cortada, morto, ele concordou.
Ninguém pode saber o meu passado
De agora em diante vou sumir com todos os coroas que comi
Daqui pra frente tudo vai ser diferente
Sou um homem sério
Eu sou pra casar

Pablo Treuffar
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A VERDADE É QUE EU MINTO

A VERDADE É QUE EU MINTO